Fibras alimentares: Prescrição, Culinária e Adesão ao Tratamento
A conceituação de fibras alimentares encontra-se constantemente em processo de revisão.
No entanto, podemos definir Fibras alimentares ou Fibras dietéticas como nutrientes intrínsecos aos alimentos. Constituem-se por polissacarídeos vegetais não hidrolisáveis pelas enzimas digestivas humanas. A lignina, molécula de polifenilpropano, também é considerada componente da fibra alimentar.
Recentemente, a indústria de alimentos desenvolveu uma variedade de carboidratos de baixo peso molecular, que se comportam no nosso organismo tal como as fibras, ainda que não sejam. Também não são digeridas pelas enzimas digestivas humanas e promovem benefícios fisiológicos similares. Incluem-se aqui carboidratos-álcoois como sorbitol, manitol, polidextrose, frutooligossacárideos e galactooligosacárideos. Acrescenta-se a este grupo as fibras alimentares industrialmente modificadas, por ex., a goma guar hidrolisada, na qual algumas características físico-químicas foram alteradas – viscosidade e solubilidade – porém mantendo sua ação fisiológica como fibra alimentar.
Prescrição de fibras alimentares.
Novos conceitos passaram a nortear a prescrição de fibras alimentares conforme exposto a seguir:
1. Prescrição de fibras alimentares e de fibras adicionadas: Com aparecimento de fontes alternativas de fibras e de outros carboidratos similares a estas, surgiu à terminologia “added fiber”, ou seja, fibra adicionada.
Segundo a posição da Associação Americana de Dietética (American Dietetic Association, julho, 2002), o total de fibras de uma alimentação é o resultante da soma da quantidade de fibra alimentar intrínseca ao alimento com o da fibra isolada, adicionada. Esta nova terminologia reposicionou a fibra alimentar quanto aos seus aspectos quali-quantitativos e consolidou a prescrição dietética de “suplementos de fibras”. Confirmou a importância das fibras alimentares na alimentação habitual, carreada pelos alimentos, e a sua suplementação com finalidades preventivas e/ou terapêuticas. Desta forma, a fibra alimentar passou a ter “luz própria”, com importância similar à de qualquer outro nutriente.
2. Prescrição de fibras segundo sua ação fisiológica: É de conhecimento que a quantidade de fibras numa dieta mista varia entre 2/3 a ¾ de fibra insolúvel. Apenas 1/3 ou 1/4 do total de fibras de uma alimentação convencional é composto por fibras solúveis. Por outro, as fibras solúveis vem sendo apontadas como favoráveis para a redução do colesterol, o controle da saciedade, o auxílio às dietas de emagrecimento, o controle da glicemia alterada, além de atuar positivamente como regulador do trânsito intestinal. Assim sendo, denota-se a intensificação de esforços visando aumentar a quantidade de fibra solúvel na alimentação, o que, na maioria das vezes, só será possível a partir da suplementação de fibra solúvel isolada. Por outro lado, a literatura especializada está sugerindo que as fibras deixem de ser identificadas pela sua solubilidade e que passem a ser denominada pela sua ação fisiológica. Desta forma, as fibras passarão a ser identificada como: fibra redutora de colesterol; fibra de alto poder laxativo; fibra de ação hipoglicemiante (ou fibra para o manejo de hiperglicemias); fibra para controle da saciedade; fibra de ação bifidogênica e assim por diante. O direcionamento da fibra segundo sua expectativa de ação no organismo norteará a prescrição.
Adesão ao tratamento X Vantagens culinárias:
A prescrição das fibras e adesão ao tratamento estará cada vez mais atrelada à sua capacidade de inclusão às preparações culinárias e aos alimentos habitualmente consumidos pelo indivíduo e/ou pela população.
Todos percebem a importância em se adicionar fibras à alimentação, porém, ninguém quer distanciar a alimentação correta de uma refeição prazerosa.
Garantir a adesão a uma suplementação de fibras é sinônimo de sucesso ao tratamento. Entretanto, mudança de comportamento alimentar e constância à suplementação de fibras proposta ainda constituem um desafio aos profissionais de saúde, médicos e nutricionistas. A indústria de alimentos, atenta a esta necessidade, tem buscado alternativas que mantenham as características organolépticas dos alimentos mesmo após o acréscimo da fibra alimentar. Os nutricionistas têm, cada vez mais, aplicado a ciência gastronômica na elaboração de cardápios de restaurantes industriais e hospitalares, preocupando-se em atender ao binômio qualidade nutricional versus o prazer em alimentar-se.
Não se questiona mais que, adicionar fibras à alimentação é uma forma de diminuir o risco de aparecimento de doenças crônico-degenerativas a partir de uma alimentação adequada. Operacionalizar a prescrição, garantir a adesão ao tratamento e a incorporação de bons princípios alimentares exigem trabalho multiprofissional intenso e constitui a difícil tarefa de modificar o hábito alimentar da população, ainda que garantindo o prazer de uma boa refeição. Este parece ser o único caminho para perpetuar o perfil alimentar saudável e esperar os frutos favoráveis desta mudança comportamental a longo prazo.
Fonte: Artigo escrito pela nutricionista Yara Carnevalli Baxter
