Fibras na Alimentação Infantil
Fibras na Alimentação Infantil
1. A conceituação de fibras alimentares está passando por uma revisão? Por quê? Qual discussão existente a respeito deste tema?
Alguns conceitos, principalmente os mais recentes, sofrem muita discussão até que se forme um consenso. Ainda assim, frequentemente, com a publicação de novos estudos, estes conceitos podem ser revisados.
A definição de fibra dietética foi uma fonte de controvérsia científica. A FAO em dois relatos consecutivos chegou a sugerir a eliminação do termo “fibra dietética”. Este termo hoje é aceito por consumidores, indústrias alimentícias e por órgãos do governo.
Com o surgimento do conceito de prebiótico, a fibra voltou ao cerne da discussão, pois alguns autores consideram a fibra um elemento prebiótico e outros não. Ainda não chegamos num consenso sobre este tema, mesmo porque o próprio conceito de prebiótico é muito novo e fonte de grande discussão e estudos.
2. Qual o conceito/definição utilizado hoje?
Existem diferentes definições para o termo “fibras alimentares”. Os autores Burkitt e Trowell definiram fibras como: “Componentes contidos nas paredes das células dos vegetais e que não são digeríveis pelo intestino delgado do ser humano, portanto não fornecem energia (caloria)”.
De acordo com AOAC (Associação Internacional de Análises) fibras alimentares são compostos de origem vegetal, correspondentes à parte comestível da planta e que não sofrem hidrólise, digestão e absorção no intestino delgado. Mas sofrem fermentação completa ou parcial no intestino grosso dos humanos.
Para a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a “fibra alimentar é qualquer material comestível que não seja hidrolisado pelas enzimas endógenas do trato digestivo humano, determinado segundo os métodos publicados pela AOAC em sua edição mais atual. Este conceito faz parte da regulação da Anvisa sobre rotulagem dos alimentos – RDC 40, de 21 de março de 2001.
3. Existem diversos tipos de fibras? Se sim, quais são e onde são encontradas?
Existem 2 tipos de fibras, as solúveis e as insolúveis. São caracterizadas como solúveis a pectina, as gomas e uma parcela da hemicelulose. E como insolúveis a celulose, a lignina e outra parcela de hemicelulose. Geralmente, os alimentos apresentam os dois tipos de fibras, sendo que os cereais e os grãos como feijão e ervilha, apresentam em maior proporção a fibra insolúvel, enquanto as frutas e os vegetais apresentam mais fibras solúveis.
4. Qual o papel deste nutriente na alimentação das crianças de 0 a 3 anos?
As fibras apresentam importante papel na alimentação infantil. Sobretudo na alimentação de crianças acima de 2 anos, pois é nesta idade que encontramos maior prevalência de constipação intestinal (prisão de ventre). Para Crianças de 0 a 6 meses, a OMS, O Ministério da saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria formam consenso sobre o aleitamento materno exclusivo. E ainda, que o leite materno deve ser o principal alimento até os 2 anos de idade, sendo complementado à partir do sétimo mês com a inclusão de novos alimentos como frutas, sucos e papinhas de forma lenta e gradual.
5. Pode auxiliar na prevenção de doenças? Se sim, quais?
As fibras podem sim prevenir diversas doenças, sobretudo as que têm como causa, ou que podem ser agravadas pelo mau funcionamento do intestino, como por exemplo, constipação intestinal crônica, doenças diverticulares, câncer de cólon e reto, hemorróidas e Síndrome do cólon irritável.
Alguns estudos já sugerem a adição de fibras para auxiliar no controle da glicemia e do colesterol ruim. Sendo que a ADA (Associação Americana de Diabetes) já recomenda o consumo de fibras para o paciente diabético.
6. As fibras industriais têm os mesmo efeitos? Podem ser ingeridas por crianças?
As fibras industriais tem a mesma proposta das fibras encontradas nos alimentos. A diferença é que de acordo com os hábitos alimentares da criança ou do adulto, fica difícil atingir através da alimentação a quantidade ideal de fibra, então podemos lançar mão das fibras industriais para que a adesão seja maior. Também, em algumas doenças, é interessante que o conteúdo das fibras seja modificado, restringindo da alimentação um ou outro tipo de fibra. Nesse caso pode-se utilizar apenas um tipo de fibra, já que a indústria oferece módulos de fibras solúveis, módulos de fibras insolúveis e compostos com os dois tipos.
7. Qual a quantidade de fibra recomendada para crianças de até 3 anos de idade? Poderia separar por faixas de idade?
O uso de Fibras em pediatria ainda possui muitas controvérsias. Alguns autores consideram desnecessário o uso das fibras no primeiro ano de vida. Justamente porque o preconizado até o sexto mês é o aleitamento exclusivo e a complementação deste após o sexto mês ser feita com alimentos, que no geral, apresentam boa fonte de fibra.
Outros autores consideram a adição de pelo menos 5 gramas de fibra/dia.
A Academia Americana de Pediatria considera 0,5g/kg/dia.
No Brasil, o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam a utilização de fibras após o segundo ano de vida.
Crianças acima de 2 anos: Idade da criança + 5gramas/dia até os 20 anos de idade.
8. Como os adultos/pais podem medir essa quantidade? Poderia exemplificar?
Para medir a quantidade de fibras dos alimentos in natura, como vegetais, frutas, leguminosas, cereais e grãos, e outros. É necessário que se tenha conhecimento da tabela de composição dos alimentos. O profissional Nutricionista deve elaborar o cardápio da família ou da criança, da creche ou da escola preconizando o acesso à todos os tipos de nutrientes, de forma adequada e equilibrada e poderá fornecer uma tabela com o índice de fibras dos alimentos.
Para alimentos industrializados o rótulo deve conter a presença ou não de fibras no alimento e a quantidade.
9. O excesso de fibras pode ser prejudicial? Se sim como e por quê?
O excesso de fibra pode sim levar a criança ou o adulto a um prejuízo na absorção de alguns nutrientes. Como a fibra interfere na absorção de gorduras, por exemplo, as vitaminas lipossolúveis, que precisam de gordura para ser absorvidas podem ser prejudicadas. Outro nutriente que pode sofrer uma diminuição da absorção por conta do excesso de fibras é o ferro.
Mas no geral, um cardápio bem equilibrado prevê estas perdas e faz compensações como inclusão de vitamina C que favorece a absorção do ferro.
10. Você acha que o brasileiro sofre de excesso ou de falta de fibras? Há estudos a esse respeito?
Infelizmente a dieta do Brasileiro está longe de ser adequada em vários nutrientes, inclusive em fibras. E em publicação recente do ministério da saúde, constatou-se, através de dados do IBGE que o aumento da renda do brasileiro tem contribuído para o aumento da oferta e do acesso aos alimentos industrializados. Cada vez mais o brasileiro opta por refeições com de precário valor nutricional.
Segundo dados do Ministério da Saúde, “houve uma transição nutricional, devido à urbanização e globalização, que resultaram em mudanças substanciais na alimentação, com a crescente oferta de alimentos industrializados (muitos ricos em gorduras, açucares e sódio), facilidade de acesso a alimentos caloricamente densos e baratos (o que afeta, em especial as famílias de baixa renda) e redução generalizada da atividade física”.
Um estudo publicado na Revista de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo constatou o “baixo consumo de fibras alimentares, com diferenças estatisticamente significante entre os sexos. As práticas alimentares revelaram que a dieta é constituída por alimentos pobres em fibras alimentares”. (Estudo na íntegra em http://www.scielo.br/pdf/rsp/v34n1/1381.pdf).
11. Quais atitudes na rotina das crianças podem contribuir direta ou indiretamente na correta ingestão de fibras, em sua opinião?
A inclusão de 2 a 3 porções de frutas na alimentação, já traz grandes benefícios, pois garante uma oferta de vários nutrientes, não só das fibras, necessários ao bom desenvolvimento da criança. Quando possível, trocar a farinha branca (farinha de trigo) por aveia, por exemplo, é uma boa forma de incluir mais fibra na alimentação. A aveia pode fazer parte de muitas preparações como tortas, vitaminas, até de preparações à base de carne.
12. A partir de que idade os adultos devem começar a se atentar à quantidade de fibras na alimentação das crianças? Desde a papinha esse tema deve estar presente?
Como disse anteriormente, quando incluímos as papinhas na alimentação das crianças acima de 6 meses, estas por si só já possuem boa quantidade de fibras, por serem preparadas à base de frutas, vegetais e leguminosas. À partir de 2 anos é que geralmente começam a surgir alguns transtornos intestinais. O interessante é que a mãe acompanhe as mudanças ocorridas na alimentação da criança e que defina com o pediatra o que deve ou não ser preocupante. Às vezes a mudança alimentar gera também uma mudança, por exemplo, na frequência de evacuações da criança, mas pode ser apenas uma adaptação e não configurar exatamente em um transtorno ou doença.
13. Poderia dar dicas de como aumentar o consumo de fibras na dieta infantil?
Como disse anteriormente aumentar o consumo de frutas e vegetais já traz um efeito benéfico. Pode-se trocar o refrigerante pelo suco natural, ou oferecer o leite na forma de mingau e adicionar a aveia por exemplo. Também substituir os alimentos que possuem a versão integral, como o pão e o biscoito.
14. Poderia dar uma receita que contenha fibras e que seja do gosto das crianças?
Uma receita que costumo indicar é o Bifinho de aveia. Os bifinhos de carne são feitos com farinha de aveia ao invés da de trigo. Também não leva ovo, para dar liga eu adiciono 2 colheres de azeite ou óleo de soja.
Ingredientes: Carne Moída (500 g), aveia (2 colheres de sopa cheias), azeite ou óleo de soja (2 colheres de chá). Tempero: Sal, cebola e alho à gosto.
Mistura todos os ingredientes e faz os bolinhos, achatando em forma de bifinhos de hambúrguer, coloca em uma forma assadeira e leva ao forno. Pode ser oferecido também com molho na forma de almôndegas, mas o molho deve ser colocado por último sobre o bifinho para que o mesmo não desmanche na panela.
15. Em casa substituir todas as massas pelas opções integrais é recomendável?
É interessante que se tenha uma boa fonte de fibras na alimentação. Mas o mais importante é que a alimentação ofereça os nutrientes de forma adequada e equilibrada. Respeitando o idealizado pela pirâmide alimentar, ou seja, se os alimentos de cada grupo estiverem presentes nas proporções certas, não há que fazer grandes restrições ou modificações. Os alimentos integrais, além de conservar boa parte de nutrientes que seriam perdidos no processo de industrialização, são boas fontes de fibra. Mas assim como as massas finas (não integrais) possuem a mesma ou até aumentada, quantidade de calorias, o que pode significar um aumento de peso se consumidas exageradamente. Outro fator importante é a ingestão de carboidratos, pois embora os integrais, por conta das fibras, possuam um índice glicêmico menor (liberação lenta da glicose no sangue), a quantidade de carboidratos não deve ultrapassar a recomendada na pirâmide alimentar para o indivíduo saudável e principalmente, para os Diabéticos, além disso, os carboidratos devem ser combinados aos outros nutrientes como as proteínas por exemplo.
A inclusão dos alimentos integrais na alimentação poderá ser feita, sem excessos. Não há como pensar que por ser integral o consumo é liberado. Só um nutricionista pode orientar na elaboração de uma dieta balanceada e personalizada.
Entrevista concedida Por Gisele Vieira – Nutricionista/Aprender Nutrir para:
Projetos Escolares Creche, uma publicação bimestral, de circulação nacional, voltada a professores que trabalham com crianças de 0 a 3 anos. A revista é uma publicação da On Line Editora. Tema: Fibras na alimentação Infantil
